10 poemas de Fernando Pessoa para conhecer a vida do poeta

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

1. O nascimento de Fernando Pessoa

Um raio hoje deslumbrou-se de lucidez. Nasci. (...) como se uma janela se abrisse, o dia já raiado raiou

Fernando António Nogueira Pessôa nasceu no dia 13 de junho de 1888, uma quarta-feira, por volta das 15:20h, segundo a sua certidão de nascimento. Foi em um apartamento do quarto andar situado num prédio do Largo de São Carlos, em frente ao Real Teatro de São Carlos, no centro de Lisboa.

Os pais de Fernando Pessoa eram Joaquim de Seabra Pessoa, um funcionário público e redator de jornal, e a mãe era Maria Magdalena Pinheiro Nogueira. A mãe de Pessoa nasceu na Ilha Terceira, nos Açores, e se mudou para o Porto quando tinha quatro anos, depois que o pai foi nomeado Secretário-Geral do Governo Civil do Porto. 

Os pais de Pessoa se casaram em Lisboa, na mesma cidade onde nasceram os filhos. O menino Fernando Pessoa foi batizado no dia 21 de julho de 1888, na Igreja dos Mártires, no Chiado, em Lisboa.

Nascido e criado na capital portuguesa, Fernando Pessoa tem uma série de poemas onde homenageia a sua cidade natal:

Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar. (...)
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

(Poema Lisboa com suas casas de Álvaro de Campos)

Fernando Pessoa viveu no centro da capital portuguesa e estudou em casa, com a mãe, até os sete ou oito anos de idade, quando entrou para a escola na mesma cidade. 

2. A perda do pai

O menino Fernando Pessoa perdeu o pai - Joaquim de Seabra Pessôa -, vítima de tuberculose, no dia 13 de julho de 1893.

Muitos anos mais tarde escreveu o famoso poema Aniversário, que faz referência a essa trágica situação vivida de modo tão precoce. 

O pai, já muito doente e enfraquecido, não foi capaz de ir ao aniversário do filho que completava cinco anos. É a essa sensação de perda que Pessoa alude ao longo dos versos:

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

(trecho do poema Aniversário)

3. A perda precoce do irmão

No dia 2 de janeiro de 1894, alguns meses depois da morte do pai, o jovem Fernando Pessoa perdeu também o irmão, Jorge Nogueira Pessoa, que faleceu vítima de uma reação alérgica à vacina da varíola. 

Sobre o episódio traumático da perda do irmão mais novo ainda bebê, Fernando Pessoa escreveu o poema abaixo em 1916:

Minha mãe, dá-me outra vez
O meu sonho.
Ele era tão belo, mãe,
Que choro porque o tive
Quero voltar para trás, mãe,
E ir buscá-lo ao meio do caminho.
Não sei onde ele está
Mas é ali que está

E brilha onde eu o não vejo
O meu sonho, mãe,
É o meu irmão mais novo.

3. O novo casamento da mãe de Pessoa e a chegada do padrasto

A mãe de Fernando Pessoa se casou pela segunda vez aos 34 anos, no dia 30 de dezembro de 1895. 

O noivo, João Miguel Rosa, foi representado na cerimônia pelo irmão Henrique Rosa, um general, porque no dia do seu casamento o comandante que viria a ser padrasto de Fernando Pessoa estava a trabalho na África do Sul.

Esse novo casamento da mãe de Pessoa rendeu cinco filhos (dos quais dois faleceram ainda quando eram pequenos). 

O homem que se tornou padrasto de Fernando Pessoa quando o poeta ainda era jovem ficou eternizado em alguns poemas:

Meu padrasto 
(Que homem! que alma! que coração!)
Reclinava seu corpo basto
De atleta sossegado e são

Na poltrona maior
E ouvia, fundando e cismado
E o seu olhar azul não tinha cor.

4. A mudança para o exterior

Já viúva, no princípio de 1895, a mãe de Fernando Pessoa, dona Maria, depois de se casar resolveu sair de vez de Portugal.

Sem saber o que fazer com o filho Fernando, do primeiro casamento, ela cogitou algumas possibilidades, a primeira delas era deixar o menino com a tia-avó Maria Xavier Pimeiro, que era casada com um oficial da armada.

Dona Maria consultou o filho Fernando, então com sete anos, para saber a sua opinião sobre o assunto. 

Em resposta, no dia 26 de julho de 1895, o menino escreveu alguns versinhos - os seus primeiros - para deixar a sua clara vontade de partir para o exterior com a mãe e com o novo padrasto:

À minha querida mamã

Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci.
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.

5. A entrada no universo da literatura 

Fernando Pessoa chegou a entrar no Curso Superior de Letras, mas em junho de 1907 abandonou o curso.

Em abril de 1912 o escritor publicou o seu primeiro artigo de crítica em uma revista literária do Porto. 

No ano seguinte publicou na Revista A Águia e em fevereiro de 1914 publicou na revista Literária A Renascença. A partir de então começou a publicar com certa regularidade.

Com a sua maneira original de encarar o mundo e a poesia criou os seus heterônimos, os mais conhecidos foram Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

Sobre o seu complexo processo de criação literária, Pessoa deixou registrado nos versos de Autopsicografia, criado em 1931:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

6. Fernando Pessoa viajante

O poeta viveu boa parte da vida fora de Portugal, muito graças à carreira do padrasto, tendo experimentado o cotidiano na Inglaterra e na África do Sul, por exemplo. 

O tema das viagens, tão frequente na sua poesia, marcou o seu caráter e a sua literatura.

Desde muito cedo Fernando Pessoa se considerou uma espécie de cidadão do mundo.

Sobre as viagens que fez, o poeta deixou alguns registros como a lembrança do período que viveu na Inglaterra:

Meu coração está pleno de uma dor indolente
E uma velha canção de ninar inglesa
Emerge da neblina do meu cérebro.

7. O nascimento do heterônimo Ricardo Reis

Um dos heterônimos mais conhecidos do poeta, Ricardo Reis, nasceu no dia 19 de setembro de 1887 no Porto (em Portugal).

Médico, ele se formou em uma escola jesuíta e, como era monarquista, depois da Proclamação da República Portuguesa se exilou no Brasil. 

Um dos seus poemas mais famosos é Segue o teu destino:

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

8. A vida do heterônimo Alberto Caeiro

Nascido em Lisboa, no dia 16 de abril de 1889, Alberto Caeiro cresceu solitário uma vez que era órfão de pai e mãe tendo sido criado por uma tia. 

Muito ligado à natureza, ingênuo, nos seus versos vemos a paixão pelo campo e pelos valores da simplicidade. Caeiro sabia aproveitar a vida nos seus pequenos detalhes. 

O heterônimo viveu apenas 26 anos e morreu de tuberculose.

O seu poema mais famoso foi longo O guardador de rebanhos, selecionamos abaixo um trecho:

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

9. A trajetória do heterônimo Álvaro de Campos 

O heterônimo mais moderno de Fernando Pessoa, representante máximo das ideologias do século XX, é o engenheiro naval Álvaro de Campos, que nasceu no dia 15 de outubro de 1890 na cidade de Tavira. 

Antenado com o que se passava no seu tempo e vítima de uma sociedade cada vez acelerada, lemos nos seus versos muito da ansiedade vivida pela sua geração.

É de Álvaro de Campos o celebrado Poema em linha reta, segue abaixo a passagem inicial da criação:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

10. A morte de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa faleceu no dia 30 de novembro de 1935, em Lisboa. O poeta foi internado na véspera da sua morte em um hospital da capital portuguesa com sintomas de cólica hepática, sintoma ligado à cirrose que o acometia há algum tempo. 

Reza a lenda que as últimas palavras que disse antes de morrer foram dá-me os óculos.

Sobre a morte, Fernando Pessoa e os seus heterônimos deixaram uma série de versos publicados. O heterônimo Alberto Caeiro, por exemplo, escreveu em um dos seus mais famosos poemas justamente sobre a hipótese de perder a vida cedo:

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

(trecho)

Se você é fã do poeta português aproveite para conhecer a biografia completa de Fernando Pessoa.

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).