Os heterônimos de Fernando Pessoa e as suas biografias

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

1. Álvaro de Campos (1890-1935), o poeta da vida moderna

Nascido em Tavira, na região do Algarve, sul de Portugal, no dia 15 de outubro de 1890, às 13:30h, Álvaro de Campos veio para Lisboa estudar quando ainda era muito novo.

No final da adolescência entrou para o curso de engenharia mecânica e depois naval na Escócia (em Glasgow), onde se formou.

Álvaro de Campos nunca trabalhou porque não conseguia se imaginar preso a uma rotina de escritório. 

O poeta da vida moderna deu voz ao cansaço, à ansiedade, à depressão e à sensação de estar perdido, típica da sua geração. 

Fernando Pessoa criou o seu heterônimo mais famoso em 1915. Fisicamente o descreveu como sendo "alto (1,75 de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se (...) Tipo vagamente de judeu português." De cabelo liso, usava sempre um monóculo.

Segundo o poeta:

de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a "Ode Triunfal" de Álvaro de Campos a Ode com esse nome e o homem com o homem que tem

Os versos de Álvaro de Campos falam sobre a civilização moderna, sobre a vida industrial veloz, intensa e sobre o excesso a que o seu corpo (e os da sua geração) não estava habituado. 

Álvaro de Campos escreveu sobre a máquina, sobre a mecanização, sobre toda uma nova era e sobre o seu desajuste com esse novo tempo. Ele foi também um poeta rebelde e revoltado, que muitas vezes demonstrava a sua insatisfação na poesia. 

Campos viajou para o Oriente, conheceu outras realidades e transpareceu a sua fome de mundo nos versos. 

Muitos dos seus poemas elogiam a infância, que leu como sendo o lugar do paraíso perdido.

Depois de conhecer o heterônimo Alberto Caeiro, no Ribatejo, Álvaro de Campos virou seu discípulo: "O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma". 

O heterônimo faleceu no final de 1935, em Lisboa.

Conheça mais sobre a vida de Álvaro de Campos.

Ode triunfal (trecho)

À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 

Em fúria fora e dentro de mim, 

Por todos os meus nervos dissecados fora, 

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 

De vos ouvir demasiadamente de perto, 

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 

De expressão de todas as minhas sensações, 

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

2. Alberto Caeiro (1889-1915), o poeta da natureza

Caeiro é considerado o mestre dos outros heterônimos.

Nascido em Lisboa, no dia 16 de abril de 1889, ficou órfão de pai e mãe cedo e foi criado por uma tia numa quinta no Ribatejo, onde conheceu Álvaro de Campos.

Não entrou para a universidade, tendo feito apenas o curso primário e não tinha profissão.

Caeiro aparece para Fernando Pessoa no dia 8 de março de 1914, de forma inesperada e o faz escrever mais de três dezenas de poemas de uma vez.

Sobre o nascimento do heterônimo, Pessoa escreveu que se lembrou um dia de pregar uma peça ao também poeta e amigo Mário de Sá-Carneiro inventando:

um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira foi em 8 de Março de 1914 acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir.  Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. 

O heterônimo que louva a simplicidade e a ingenuidade levou uma vida no campo. Até a própria linguagem que usa é simples e objetiva, muitas vezes se assemelha a linguagem das crianças. Caeiro usa versos livres e muito acessíveis.

O heterônimo permanentemente elogia a natureza, deseja se integrar a ela com todas as suas forças. Essa sua forma de estar à vontade no campo tem a ver com a sua criação nesse ambiente rural.

O poeta fala nos seus versos muito das sensações do corpo - não por acaso é conhecido como sendo o poeta das sensações -, daquilo que experimenta com a pele, do que vê, do que ouve e do que cheira.

O heterônimo privilegia o sentir e não o pensar: tudo é como é. 

Em termos físicos é descrito como sendo louro, de olhos azuis e estatura média.

Caeiro faleceu de tuberculose em 1915, tendo tido uma curta vida. 

Descubra mais sobre o percurso de Alberto Caeiro.

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estacões
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr do Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

3. Ricardo Reis (1887-), o poeta erudito

Ricardo Reis nasceu no dia 19 de setembro de 1887, no Porto, às 16:05h.

Sobre o nascimento do heterônimo, o poeta Fernando Pessoa escreveu:

O Dr.Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 29 de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as cousas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, que se ia desenvolvendo.

Apesar de ter dito que Ricardo Reis nasceu na sua cabeça em 1914 (em Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação), numa carta posterior, que escreveu para Adolfo Casais Monteiro, em janeiro de 1935, Pessoa assumiu que pensou pela primeira vez em Ricardo Reis dois anos antes, em 1912. 

Ricardo Reis foi educado num colégio jesuíta e é monarquista. Formado em Medicina, é um homem profundamente culto, que sabe latim e grego. 

Com uma formação clássica, o heterônimo louva a civilização e a mitologia grega. Usa nos seus versos uma linguagem culta, elaborada, e formas métricas. 

Reis é obcecado pelo tema da morte e relembra muitas vezes nos seus versos como a vida é passageira. As suas primeiras obras foram publicadas na revista Athena, mas os poemas mais famosos saíram na Revista Presença.

Em termos sociais, é distante dos outros, não se relaciona bem com quem está ao redor e recusa qualquer tipo de compromisso afetivo. 

Fisicamente era descrito como mais baixo e mais pesado do que Caeiro. Não usava barba. 

Depois que a República é proclamada em Portugal, Ricardo Reis se exila voluntariamente no Brasil, em 1919.

O heterônimo escreveu entre 1914 e 1933. A sua data de falecimento nunca foi atribuída por Fernando Pessoa.

Saiba mais sobre a biografia de Ricardo Reis.

Vivem em nós inúmeros;

Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar

Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia

Indiferente a todos.

Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados

Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou. Ignoro-os.
Nada ditam

A quem me sei: eu 'screvo.

Aproveite para conhecer o artigo 10 poemas de Fernando Pessoa para conhecer a vida do poeta.

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).