11 poemas de William Shakespeare imperdíveis

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O escritor inglês William Shakespeare (1564-1616) é um nome incontornável no universo do teatro e da poesia. Além das peças famosas como Romeu e Julieta e Hamlet, Shakespeare deixou como legado uma série de poemas preciosos onde reflete sobre o amor, o destino, o tempo, a beleza e a vida. 

1. Soneto 116

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

O soneto 116 é uma das criações mais famosas do poeta. Aqui Shakespeare faz um elogio ao relacionamento amoroso, que parece ser fonte de segurança e estabilidade. 

Ele fala do amor como uma espécie de âncora, como um sentimento ideal que sobrevive ao tempo e a todas as adversidades. 

O poema que se tornou uma espécie de hino dos apaixonados é um exemplo de criação romântica idealizada.  

2. Soneto 88

Quando me tratas mau e, desprezado,
Sinto que o meu valor vês com desdém,
Lutando contra mim, fico a teu lado
E, inda perjuro, provo que és um bem.

Conhecendo melhor meus próprios erros,
A te apoiar te ponho a par da história 
De ocultas faltas, onde estou enfermo;
Então, ao me perder, tens toda a glória.

Mas lucro também tiro desse ofício:
Curvando sobre ti amor tamanho,
Mal que me faço me traz benefício,

Pois o que ganhas duas vezes ganho.
Assim é o meu amor e a ti o reporto:
Por ti todas as culpas eu suporto.

No soneto 88 encontramos um sujeito devoto, que oferece à amada toda a sua dedicação. Vemos que se trata de uma relação a princípio desigual: enquanto ele entrega todo o seu coração, ela responde com desdém e o menospreza. Mesmo diante desse comportamento, ele é capaz de superar todas as ofensas que ela lhe causou e continuar amando a mesma. 

Apesar de ser um encontro marcado pelo desequilíbrio entre as partes, o sujeito continua louvado a mulher amada e oferecendo todo o amor que pode entregar. Ao ver parte do seu afeto pelo menos parcialmente retribuído, ele fica duplamente contente. 

3. Soneto 18

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

Também bastante popular, o soneto 18 fala do amor de uma forma bastante singular, usando a metáfora da natureza para falar sobre o sentimento. 

O apaixonado associa a beleza da amada a um dia de verão e, através de uma série de comparações com elementos da natureza, elogia o seu aspecto físico.

Shakespeare também toca aqui na questão do poder da poesia, já que, através dos versos, o amado permanece eternizado. 

4. Soneto 23

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

No soneto 23 encontramos um sujeito tímido, que ama em silêncio, recluso no seu próprio universo. 

A imagem do ator no primeiro verso, que fala de alguém que se exibe corajosamente, contrasta com esse homem discreto, que prefere deixar a eloqüência para os seus livros.

Ao contrário de uma série de poemas de Shakespeare onde o amor é louvado com grandes gestos e de modo suntuoso, aqui vemos a beleza de um amor curtido na calada, de modo quieto e sereno.  

5. Soneto 35

Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;

Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;

Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te escuso, e me convenço

Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

O soneto 35 traz uma reflexão sobre a vida feita com um olhar generoso, onde há espaço para reconhecer os erros próprios e alheios. O poeta enumera uma série de aspectos negativos dentro do que a princípio é positivo: até dentro da fonte há lodo e na rosa é possível encontrar espinhos. 

Ao invés de camuflar as dificuldades, o sujeito identifica a existência delas e pensa na forma como lidarmos com esses assuntos difíceis. O poema trata justamente sobre esse reconhecimento, mas também sobre o dia seguinte, sobre a necessidade de não chorar mais o arrependimento. 

6. Soneto 19

Tempo voraz, ao leão cegas as garras
E à terra fazes devorar seus genes;
Ao tigre as presas hórridas desgarras
E ardes no próprio sangue a eterna fênix.

Pelo caminho vão teus pés ligeiros
Alegres, tristes estações deixando;
Impões-te ao mundo e aos gozos passageiros,
Mas proíbo-te um crime mais nefando:

De meu amor não vinques o semblante
Nem nele imprimas o teu traço duro.
Oh! Permite que intacto siga avante

Como padrão do belo no futuro.
Ou antes, velho Tempo, sê perverso:
Pois jovem sempre há-de o manter meu verso. 

O belíssimo soneto 19 compara o tempo a um leão raivoso, que devora tudo aquilo que vê pela frente. 

O poema, profundamente visual, fala de uma forma extremamente poética sobre a nossa incapacidade de controlar o tempo

O sujeito do poema, apesar de estar consciente da crueldade do tempo, negocia com ele e pede para que não faça mal a sua amada. 

7. Soneto I

Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do Belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.

Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.

Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão

E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo. 

O soneto que abre a coletânea de Shakespeare começa falando sobre a importância de deixarmos descendência no mundo para sobrevivermos ao tempo e deixarmos os nossos genes no planeta. 

O sujeito que fala procura motivar o outro, que ouve, a procriar, e, diante de uma suposta recusa, é criticado pelo poeta, que ameaça a sua beleza de desaparecer da terra com o passar dos anos dada a inevitabilidade da morte. 

8. Soneto 73

Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.

Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.

Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo

Do quanto que o nutriu ora esgotado.
Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a morte

A passagem do tempo é caracterizada no soneto 73 a partir da mudança das estações e do crescimento dos animais. As folhas já quase inexistentes denunciam o inverno, enquanto os pequenos pássaros que eram ovos no ninho já fazem barulho e apresentam plumas. 

O soneto, com um olhar pessimista, fala do envelhecimento do sujeito. Ele é visto a partir de um sentimento de decadência, de degradação, como se o tempo agisse nele de forma a encaminha-lo rapidamente para a morte. Só o amor aparece como sendo capaz de atenuar e dar consolo nesse momento final da vida. 

9. Soneto 138

Quando jura ser feita de verdades,
Em minha amada creio, e sei que mente,
E passo assim por moço inexperiente,
Não versado em mundanas falsidades.

Mas crendo em vão que ela me crê mais jovem
Pois sabe bem que o tempo meu já míngua,
Simplesmente acredito em falsa língua:
E a patente verdade os dois removem.

Por que razão infiel não se diz ela?
Por que razão também escondo a idade?
Oh, lei do amor fingir sinceridade

E amante idoso os anos não revela.
Por isso eu minto, e ela em falso jura,
E sentimos lisonja na impostura. 

Lemos nos versos de Shakespeare uma reflexão sobre a infidelidade na relação amorosa. Vemos também a dificuldade dos amantes de serem francos com relação à idade - ele é mais velho e ela acredita que o amado é mais jovem. 

A questão da idade é apenas um dos motivos de conflito entre os dois. Tanto a amada como o seu parceiro parecem esconder informações um do outro: ela porque é infiel, ele porque mente sobre os próprios anos que carrega. 

10. Soneto 12

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir no carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate. 

No soneto 12, Shakespeare reflete sobre a vida, sobre a continuidade do homem através das gerações. O poeta reconhece a descendência - o nascimento dos filhos e netos - como a única forma de vencer o tempo. 

No princípio do poema Shakespeare enumera uma série de imagens que nos fazem pensar sobre a passagem do tempo (o relógio, as flores que vão perdendo o viço, as folhagens que se despem). Diante do imperativo que é o passar dos dias, ele encontra nas novas gerações a única maneira de permanecer no mundo mesmo após a sua morte

11. Soneto XIV

Dos astros não retiro entendimento
Embora eu tenha cá de astronomia,
Mas não para prever a sorte, o intento
Das estações, ou fome, epidemia;

Nem sei dizer o que será do instante,
Prever a alguém quer chuva, ou vento, ou raio;
Se tudo há-de sorrir ao governante
Segundo as predições que aos céus extraio.

De teus olhos provêm meus atributos
E, astros constantes, leio ali tal arte:
Que a verdade e a beleza darão frutos

Se em ti deixas de tanto reservar-te;
Ou um vaticínio sobre ti revelo:
Teu fim põe termo ao verdadeiro e ao belo.

O soneto XIV fala sobre a capacidade de prever o futuro, de antecipar acontecimentos, mas não através da tradicional interpretação do que se passa com os astros.

Ao invés de olhar para o céu de modo a extrair informações, aqui o sujeito, apaixonado, consegue antever o que irá acontecer através dos olhos daquela que ama. É ao observar seu olhar de modo demorado que o poeta se torna capaz de prever o destino. 

Conheça a biografia completa de William Shakespeare.

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).