Frida Kahlo (1907-1954) é uma das figuras femininas mais famosas do ocidente. Seu trabalho como pintora, fotógrafa e escritora deixou ao mundo das artes um legado muito valioso. 

Frida viveu apenas 47 anos, mas a sua biografia é de uma intensidade impressionante! Quem não se recorda das suas sobrancelhas unidas e das suas coloridas obras de arte? 

Que tal conhecer um pouco mais do percurso dessa mulher ímpar através dos seus quadros?

A genealogia de Frida

A mãe de Frida, Matilde Calderón, era de origem Oaxaca e não sabia ler nem escrever. O pai, Guillermo Kahlo, emigrou com 18 anos da Alemanha para o México. Tanto o pai de Frida quanto o seu avô eram fotógrafos. 

A primeira mulher de Guillermo, María Cardeño Espino, faleceu durante o parto da sua segunda filha. As duas filhas do casal foram então enviadas para um colégio interno.  

Três meses após o falecimento da primeira esposa, no dia 21 de agosto de 1898, Guillermo casou-se com Matilde. Frida foi a terceira filha das quatro meninas fruto do casal.

O quadro abaixo, pintado em 1936, trata justamente das origens da pintora. Intitulado Meus Avós, Meus Pais e Eu, ele é uma espécie de retrato de família, uma criativa árvore genealógica ilustrada. 

meus avos meus pais e eu
Meus Avós, Meus Pais e Eu, 1936

A infância de Frida

Nascida no México em 6 de julho de 1907, Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderó passou a sua infância na residência conhecida como La Casa Azul (A Casa Azul), em Coyoacán, onde hoje funciona o Museu Frida Kahlo. 

Apesar de ter nascido em 1907, quando perguntada sobre a sua data de nascimento, Frida sempre dizia que tinha nascido em 1910, ano em que começou a Revolução Mexicana. A artista gostava de pensar que tinha nascido junto com o novo México, não mais regido pela ditadura.  

Frida teve uma infância difícil e lutou, quando tinha apenas seis anos, contra uma doença chamada espinha bífida. Com limitações físicas, a menina nunca chegou a ser uma criança com uma rotina normal.

Na tela abaixo, composta em 1932, a pintora registra o momento exato do seu nascimento. 

Meu Nascimento, 1932
Meu Nascimento, 1932

Sua mãe, que deu à luz a sua irmã Cristina apenas onze meses depois do seu nascimento, não podia amamentá-la, então Frida foi alimentada por uma enfermeira indígena nativa contratada apenas para este propósito. 

Tal acontecimento foi retratado em um dos seus quadros mais poderosos, onde a ama aparece com uma máscara funerária pré-colombiana, já que a pintora, adulta, não podia se lembrar do seu rosto. 

Minha Ama e Eu, 1937
Minha Ama e Eu, 1937

Os amores de Frida

Quando tinha 15 anos de idade, Frida conseguiu uma vaga na Escola Nacional Preparatória do México, uma das mais concorridas do país.

Foi lá que teve o primeiro contato com quem viria a ser o seu esposo, Diego Rivera. Ele, muito mais velho, pintava e expunha algumas das suas obras na escola, Frida apenas admirava o artista de longe. 

Nesta mesma época, a pintora teve o seu primeiro romance, com um colega chamado Alejandro Gómez Arias. 

Foram três anos inseparáveis de cumplicidade, paixão e troca de cartas. Alejandro rendeu um dos poucos retratos que Frida fez de outras pessoas:

Retrato de Alejandro Gómez Arias, 1928 
Retrato de Alejandro Gómez Arias, 1928 

O acidente de ônibus 

No dia 17 de setembro 1925, o ônibus em que Frida Kahlo viajava com o namorado Alejandro e outros colegas colidiu com um bonde da linha de Xochimilco.

O quadro abaixo retrata o ônibus um pouco antes do acidente.

O ônibus, 1929
O ônibus, 1929

Todos os que estavam no ônibus tiveram ferimentos, mas Frida sofreu com danos mais graves, que deixaram sequelas para o resto dos seus dias.

A pintora chegou a ser internada no hospital da Cruz Vermelha e correu mesmo risco de vida. Devido às fraturas, Frida foi obrigada a passar mais de um ano na cama em repouso absoluto. 

Os autorretratos de Frida

A ideia de estimular a filha a pintar foi da mãe de Frida que, vendo a jovem presa ao hospital, resolveu transformar o espaço colocando um espelho no teto e adaptando um cavalete à cama. O pai de Frida levou uma série de tintas e a artista começou a produzir os seus autorretratos. 

Frida compôs o seu primeiro autorretrato, o Autorretrato com Vestido de Veludo, para o então namorado Alejandro Gómez Arias. O quadro foi entregue à Alejandro e no verso da pintura havia uma inscrição que dizia "Agora é para sempre".

A relação, porém, acabou depois que Alejandro foi para a Europa. 

Autorretrato com Vestido de Veludo, 1926
Autorretrato com Vestido de Veludo, 1926

Quando questionada sobre qual seria a razão da sua fixação por autorretratos, Frida respondeu sem rodeios:

Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.

Em outro interessante autorretrato observa-se uma Frida que se funde com a terra. É uma alusão à sua forte ligação com o México como país de origem.  

Raízes, 1943
Raízes, 1943

No quadro abaixo, Frida também utiliza referências da sua terra natal e se pinta usando uma coroa de espinhos (castigo cristão), um gato preto (má sorte) e um beija-flor morto, pássaro que na tradição folclórica mexicana é símbolo de boa sorte nos casos de amor. 

Autorretrato com um colar de espinhos, 1940
Autorretrato com um colar de espinhos, 1940

Frida e o comunismo

Em 1927, Frida retomou contato com velhos amigos da escola e passou a fazer parte de um grupo de jovens comunistas. 

A opção política de Frida aparece em dos seus quadros mais famosos, pintado pouco antes de sua morte, chamado O marxismo dará saúde aos doentes.

O marxismo dará saúde aos doentes, 1954
O marxismo dará saúde aos doentes, 1954

Frida e Diego Rivera: romance de novela mexicana 

Frida conheceu o famoso pintor mexicano Diego Rivera em 1922. Sete anos mais tarde, no dia 21 de agosto de 1929, em Coyoacán, casou-se com o muralista, que dizia ser o amor da sua vida. 

Diego era 21 anos mais velho, já tinha uma boa experiência como pintor e passou a incentivar o seu talento como artista. O casal teve uma relação bastante atribulada com muitas idas e vindas e traições mútuas. 

Frida e Diego foram viver nos Estados Unidos em 1930 e permaneceram por lá até 1934. Diego havia sido convidado para pintar murais para a San Francisco Stock Exchange e para a California School of Fine Arts. Em 1931, o casal se fixou em Nova Iorque e Diego recebeu também um convite para realizar uma exposição individual no MoMA. 

O quadro abaixo é um registro feito do casal em solo norte-americano. A pintura foi realizada dois anos após o casamento, e inscrito na tela lemos o seguinte:

Aqui nos vêem. Eu, Frida Kahlo com o meu adorado marido Diego Rivera. Pintei estes retratos na bela cidade de São Francisco, Califórnia, para o nosso amigo Sr. Albert Bender e foi no mês de Abril do ano de 1931.

Frida e Diego Rivera, 1931
Frida e Diego Rivera, 1931

Outra peça que retrata a trajetória do casal é o quadro que Frida pintou como presente para o marido no 15º aniversário de casamento:

Diego e Frida 1929-1944, 1944
Diego e Frida 1929-1944, 1944

A traição de Diego com a irmã de Frida

Quando regressou dos Estados Unidos para o México, em 1935, Diego teve um caso com a irmã caçula de Frida.

O quadro abaixo foi pintado quando Frida descobriu que Diego mantinha um affair com sua irmã mais nova, Cristina. O coração está partido, ela está desamparada, sem as mãos, e o título, Memória, sugere lembranças da época que conheceu Diego, quando ainda estava na escola (uniforme pendurado do lado esquerdo). 

Memória (O coração), 1937
Memória (O coração), 1937

Com uma relação instável, digna de uma novela mexicana, a pintora, durante um surto de raiva, chegou a afirmar:

Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você. Você sem dúvida foi o pior deles.

Diego pediu o divórcio em 1939. Após alguns meses de separação, o casal voltou a se unir novamente. 

É dessa época o famoso quadro As duas Fridas, que coloca em causa a questão da identidade da pintora mexicana.

Duas personalidades diferentes são retratadas, ambas com corações expostos e de mãos dadas, sendo a única companhia uma da outra. A pintora escreveu em seu diário sobre o sentimento de dor e solidão que inspirou a pintura.

As Duas Fridas, 1939
As Duas Fridas, 1939

Os abortos espontâneos de Frida

Um dos sonhos de Frida era ser mãe e, provavelmente, a sua maior tristeza foi nunca ter conseguido dar à luz.

Em 1932, quando o casal Frida e Diego mudou-se para Detroit, Frida sofreu um aborto espontâneo. Esse foi o seu segundo aborto, o primeiro aconteceu dois anos antes, ainda no México. 

O segundo aborto ocorreu no dia 4 de julho de 1932 e Frida ficou no hospital por mais de um mês. O registro dessa ocasião triste foi feito em um quadro que leva o nome do hospital onde ficou internada. 

Hospital Henry Ford, 1932
Hospital Henry Ford, 1932

Para piorar o ano terrível de Frida, no dia 3 de setembro ela soube que a mãe estava gravemente doente. Imediatamente a pintora regressou ao México para acompanhar a família, mas no dia 15 de setembro a sua mãe faleceu vítima de um câncer de mama. 

Em 1932, após a morte da mãe, foi a vez de Frida adoecer. Depois de muito sofrimento, a pintora teve os cinco dedos do pé direito amputados e voltou a sofrer um novo aborto. 

A dor de Frida e sua arte

Em meados dos anos 40, a saúde de Frida começou a ficar ainda mais debilitada. Eram infecções renais, anemias e dores que só eram controladas com muita morfina. 

Em poucos anos, a pintora passou por inúmeras cirurgias, a maioria malsucedida. Para piorar, o seu pai faleceu, o que afundou a artista em depressão. 

A artista esteve especialmente doente durante um ano específico (entre 1950 e 1951), período em que sofreu sete operações na coluna vertebral.

Frida ficou na cadeira de rodas durante algum tempo e precisou usar um colete de gesso.

Felizmente, a princípio já não tinha mais dores. Depois de algum tempo, no entanto, as dores voltaram e, desesperada, a artista misturava analgésicos com bebidas alcoólicas para adormecer o sofrimento.

Vários dos quadros desta década são a representação da dor emocional e física de Frida, que ao mesmo tempo que ascende como uma pintora reconhecida no México e no mundo, piorava a sua condição humana. 

No quadro denominado Sem Esperança, Frida retratou a si presa a uma cama, sendo alimentada à força, sob um cobertor com desenhos de vidas microscópicas, que representa as suas constantes infecções. 

Sem esperança, 1945
Sem esperança, 1945

Neste outro, chamado A Árvore da Esperança, Mantenha-se Firme, Frida havia acabado de sair de uma cirurgia malsucedida, e retrata a si de duas formas: com cicatrizes da operação, sob o sol que na mitologia asteca se alimenta do sangue humano dos sacrifícios, e saudável e forte, segurando o seu próprio colete cervical sob a lua, símbolo da feminilidade. 

A Árvore da Esperança, Mantenha-se Firme,1946
A Árvore da Esperança, Mantenha-se Firme,1946

A precoce morte de Frida

Nos início dos anos 50, Frida Kahlo já era uma artista de renome, sendo exposta em galerias importantes ao redor do mundo, com quadros comprados pelo Museu do Louvre e outras instituições importantes. 

O que não estava bem era mesmo a sua saúde. Cirurgia após cirurgia e os seus problemas espinhais continuavam recorrentes. Ela passava a maior parte do tempo no hospital. Em 1953, a sua perna direita foi amputada e Frida contraiu uma grave pneumonia. 

Nesta época, provavelmente por não estar feliz com a sua condição física e aparência degradante, ela pintava principalmente naturezas mortas.

O quadro abaixo, por exemplo, apresenta "cocos chorando", como uma expressão de como ela estava se sentindo. 

Dá para perceber, também, que não é tão rico em detalhes quanto outros que a artista costumava pintar, porque na época já estava muito difícil para ela exercer a sua arte. 

Cocos chorando, 1951
Cocos chorando, 1951

O último autorretrato de Frida

E então, chegamos ao último autorretrato de Frida, pintado no ano de sua morte. As pinceladas mais grossas, borradas e imprecisas denunciam a sua degradação física. 

Diego aparece no peito da artista, uma figura no sol simula Jesus Cristo e, com muito senso de humor, na sua testa ela retrata a atriz Maria Felix, uma das amantes do seu marido. 

Auto-retrato com o retrato de Diego no peito e Maria entre as sobrancelhas, 1954
Autorretrato com o retrato de Diego no peito e Maria entre as sobrancelhas, 1954

No dia 13 de julho de 1954, a pintora veio a falecer aos apenas 47 anos. Alguns apontam a causa da morte como uma embolia pulmonar e outros supõem que tenha sido consequência do consumo excessivo de analgésicos. 

Tem curiosidade de saber mais detalhes da vida da pintora? Leia a sua biografia completa.

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