Djamila Ribeiro

Ativista brasileira
Por Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Biografia de Djamila Ribeiro

Djamila Taís Ribeiro dos Santos é uma importante voz contemporânea em defesa dos negros e das mulheres. 

Filósofa, ativista social, professora e escritora, Djamila corajosamente denuncia a violência e a desigualdade social - principalmente contra negros e mulheres - tão características da sociedade brasileira.

O seu livro Pequeno manual antirracista, que trata do racismo estrutural arraigado no Brasil, recebeu o prêmio Jabuti.

A ativista nasceu em Santos, São Paulo, no dia 1 de agosto de 1980.

Djamila é uma figura importante no combate ao racismo

“O racismo estrutura a sociedade brasileira, e, assim sendo, está em todo lugar.”

Corajosamente a ativista denuncia uma realidade brasileira cruel que muitas vezes passa despercebida e é naturalizada, como, por exemplo, o fato de, no Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro ser assassinado. Esse número é impressionante se pensarmos que o país é aquele que contém a maior população negra fora da África (cerca de 54% da população brasileira é negra).

Djamila traz à tona o racismo estrutural, que é herança dos tempos da escravidão e que condena, até os dias de hoje, a população negra a um determinado lugar social, com piores índices de desenvolvimento humano e fora dos espaços de poder. 

A ativista fala sobre um sistema social onde o Poder Judiciário, ao invés se manter isento, está profundamente relacionado com a polícia, muitas vezes favorecendo os militares e condenando jovens negros sem as devidas provas. Djamila nesse contexto desafia, por exemplo, a repensarmos enquanto sociedade as formações que são dadas aos policiais militares. 

A escritora sublinha na sua luta que em 1888 foi assinada a lei Áurea libertando homens e mulheres da escravatura depois de praticamente quatro séculos de escravidão, mas sem nenhum tipo de preocupação de como seria a inclusão dos negros na sociedade

Os antigos escravos foram marginalizados socialmente e, até hoje, colhemos os frutos desse tempo. As mulheres negras, por exemplo, após a abolição, foram destinadas ao trabalho doméstico (e hoje observamos o impressionante número de 6 milhões de mulheres empregadas domésticas negras no país, tendo a profissão só sido regulamentada em 2013). 

Para a escritora, a miscigenação no Brasil foi romanceada, o que levou muitos ingenuamente a acreditarem que não havia racismo no nosso país. 

O desafio de Djamila é justamente mostrar o preconceito racial que se encontra entranhado na sociedade brasileira e ajudar, de alguma forma, a combatê-lo, dando ferramentas para o grande público (re)pensar a sua postura social. 

O seu trabalho acadêmico, político e intelectual vai no sentido de apresentar a história para os brasileiros e motivá-los a praticarem políticas antirracistas no dia a dia. 

Djamila também é militante da causa feminista

“A gente luta por uma sociedade em que mulheres possam ser consideradas pessoas, que elas não sejam violentadas pelo fato de serem mulheres.”

Foi através da Casa de Cultura da Mulher Negra, em Santos, São Paulo, que Djamila se encontrou como feminista. Ela trabalhou na Casa no final da adolescência e lá se familiarizou com a luta pelas mulheres. 

Para Djamila, precisamos urgentemente repensar o feminismo no contexto brasileiro uma vez que os números são assustadores no nosso país: a cada cinco minutos uma mulher é agredida e a cada onze uma mulher é estuprada. Os casos de feminicídio têm ganhado cada vez mais visibilidade demonstrando que a violência de gênero é uma realidade também contemporânea.

A luta da ativista é pela equiparação e pela equidade das mulheres, por exemplo, no mercado de trabalho. Trata-se também de uma batalha em nome da justiça social.

Djamila reconhece que o rótulo feminismo abarca uma série de grupos com ideologias muito distintas e sublinha que, no seu caso, o que lhe interessa é dar visibilidade e ajudar a reduzir a questão da injustiça e da desigualdade de gênero. 

Uma das suas publicações - Quem tem medo do feminismo negro? - aborda as singularidades da discriminação contra as mulheres num contexto onde o preconceito racial também está presente.

A vocação para o ativismo foi aprendido em contexto familiar 

A primeira formação política de Djamila foi aprendida em casa, ao lado do pai, que era um ativista do movimento negro. Militante, Joaquim José Ribeiro dos Santos ajudou a fundar o Movimento Comunista em Santos, e levou os filhos a muitos desses encontros do grupo. 

O debate sobre a questão racial sempre esteve presente, portanto, na criação de Djamila. O próprio nome da escritora foi retirado de um jornal da militância negra dos anos 70 chamado Nornegro.  

Formada em filosofia, com mestrado na mesma área, pela Universidade Federal de São Paulo, Djamila chegou a ser secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo em 2016. 

Atualmente a ativista é também colunista da Folha de São Paulo e da Elle Brasil, além de atuar como professora convidada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Djamila publicou três livros

As obras lançadas pela ativista são:

  • O que é lugar de fala? (2016)
  • Quem tem medo do feminismo negro? (2018)
  • Pequeno manual antirracista (2019)

As suas obras também foram traduzidas para fora do país.

Além dos livros publicados, Djamila criou o Selo Sueni Carneiro, que publicou livros de autores negros com preços mais acessíveis. 

Em termos editoriais, ela coordena a coleção Feminismos Plurais, da editora Pólen. 

Djamila já recebeu prêmios nacionais e internacionais

A primeira indicação a um prêmio aconteceu com a publicação do livro O que é lugar de fala?, que chegou a ser finalista do Prêmio Jabuti na categoria Humanidades. 

Em 2019, Djamila recebeu o Prêmio Prince Claus na categoria Filosofia, oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores da Holanda reconhecendo a sua luta ativista.

No ano a seguir, foi a vez de levar para casa o Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas pelo livro Pequeno manual antirracista.

Frases de Djamila Ribeiro

“É impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre.”

“É importante estarmos em todos os lugares. Estarmos contra a maré, no lado da resistência. Precisamos encontrar estratégias e conversar com um número maior de pessoas.”

“Minha luta diária é para ser reconhecida como sujeito, impor minha existência numa sociedade que insiste em negá-la.”

“Não basta só reconhecer o privilégio, precisa ter ação antirracista de fato. Ir a manifestações é uma delas, apoiar projetos importantes que visem à melhoria de vida das populações negras é importante, ler intelectuais negros, colocar na bibliografia.”

“Não me interessa guardar para mim a reflexão se acredito na potência da transformação das mentalidades.”

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Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).
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