Gregório de Matos

Poeta brasileiro

Biografia de Gregório de Matos

Gregório de Matos (1636-1695) foi o maior poeta do barroco brasileiro. Desenvolveu uma poesia amorosa e religiosa, mas se destacou por sua poesia satírica, constituindo uma critica a sociedade da época, recebendo o apelido de "Boca do Inferno".

Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador, então capital do Brasil, na Bahia, no dia 23 de dezembro de 1636. Filho de pai português e de mãe brasileira foi criado no meio de uma família rica e influente de senhores de engenho. Foi aluno do Colégio da Companhia de Jesus onde estudou Humanidades.

Formação em Portugal

Ao terminar o curso em 1652, Gregório de Matos seguiu para Portugal. Em 1653 ingressou na Universidade de Coimbra, onde cursou Direito. Depois de formado exerceu o cargo de curador de órfãos e de juiz de Alcácer do Sal, no Alentejo. Nessa época escreveu seus primeiros poemas satíricos. Em 1678 ficou viúvo e recorreu ao arcebispo da Bahia para voltar ao Brasil.

Apelido "Boca do Inferno"

Em 1681, Gregório de Matos estava de volta a Salvador como procurador da cidade, junto à Corte portuguesa. Levava uma vida boêmia e escrevia versos e sátiras gozando de todos, sem poupar as autoridades civis e eclesiásticas da Bahia, recebendo o apedido de “Boca do inferno”. Embora não fosse padre, o arcebispo D. Gaspar Barata fez dele vigário-geral da Bahia a fim de ocupar o cargo de tesoureiro-mor da Sé, uma forma de dar maior compostura ao bacharel Gregório, já que sua língua virulenta criava terríveis inimigos.

Com a morte de D. Gaspar, em 1686, e por se negar a receber ordens sacras, e de vestir o hábito, Gregório de Matos perdeu o cargo de tesoureiro-mor e voltou a exercer a advocacia. Casa-se então com Maria dos Povos, com quem teve um filho. Em 1694, por suas críticas às autoridades da Bahia, acabou sendo deportado para Angola.

Em Angola, Gregório de Matos tornou-se conselheiro do governo, e como recompensa por serviços prestados, obteve autorização para voltar ao Brasil, não mais para a Bahia. Em 1694 está de volta e vai viver então no Recife, Pernambuco, longe das perseguições que lhe moviam na Bahia, embora proibido judicialmente de fazer suas sátiras.

Gregório de Matos morreu no ano seguinte à sua volta ao Brasil, na cidade do Recife, no dia 26 de novembro de 1695. Arrependido e reconciliado com a igreja, na hora da morte compôs um soneto a Jesus Cristo:

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
em cuja lei protesto de viver,
em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro.

Neste lance, por ser derradeiro,
pois vejo a minha vida anoitecer,
é, meu Jesus, a hora de se ver
a brandura de um pai, manso cordeiro.

Mui grande é o vosso amor e o meu delito,
porém pode ter fim todo o pecar,
e não o vosso amor, que é infinito.

Essa razão me obriga a confiar,
que, por mais que pequei, neste conflito
espero em vosso amor de me salvar.”

Obras e Características

Gregório de Matos deixou uma obra poética vasta, mas não teve nenhum livro publicado em vida. Suas poesias foram pulicadas em VI volumes, entre 1923 e 1933 com o título: “Obras de Gregório de Matos”. Em 1970 foi publicado "Poemas Escolhidos".

A produção poética de Gregório de Matos pode ser dividida em três linhas:

A Poesia Satírica de Gregório de Matos constitui uma crítica à sociedade baiana, da qual ele se sentia um censor e uma vítima. Sua linguagem é livre, espontânea e às vezes agressiva. Da crítica ferina, não escapa ninguém: a corte, clero, colonos, os lusos que vinham para o Brasil e aqui enriqueciam, todos eram ridicularizados, como nessa "sátira aos sebastianistas":

Estamos em noventa, era esperada
De todo o Portugal, e mais conquistas,
Bom ano para tantos Bestianistas,
Melhor para iludir tanta burrada.

Vê-se uma estrela pálida, e barbada,
E deduzem agora astrologistas
A vinda de um rei morto pelas listras,
Que não sendo dos Magos é estrelada.

Oh quem a um Bestianista pergunta,
Com que razão, ou fundamento, espera
Um rei, que em guerra d’África acabara?

E se com Deus me dá, eu lhe dissera:
Se o quis restituir, não o matara,
E se o quis não matar, não o escondera.

A Poesia Lírica Amorosa de Gregório de Matos expressa o idealismo amoroso revelando uma sensualidade ora grosseira, ora de rara fineza, como no soneto dedicado a Maria dos Povos:

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade
Que o tempo trata a toda ligeireza
e imprime em toda a flor sua pisada.
Ó não aguardes que a madura idade,
Te converta essa beleza, Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

A poesia religiosa de Gregório de Matos é sempre a poesia do pecador que se ajoelha diante de Deus, com um forte sentido de culpa, como no “Soneto a Nosso Senhor”:

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido,
Porque quanto mais tenho delinquido
Vos tem a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

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Última atualização: 30/10/2018

Possui bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e é professora do ensino fundamental. Desde 2008 trabalha na redação e revisão de conteúdos educativos para a web.