Pero Vaz de Caminha

Escrivão português
Por Dilva Frazão
Biblioteconomista e professora

Biografia de Pero Vaz de Caminha

Pero Vaz de Caminha (1450-1500) foi um escrivão português, autor da carta, que relatou ao Rei de Portugal, Dom Manuel I, as notícias da chegada ao Brasil da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral, em 1500.

A carta de Caminha, com 7 folhas, foi o primeiro documento oficial sobre a história do Brasil. O original encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa.

Pero Vaz de Caminha nasceu no Porto, Portugal, no ano de 1450. Seu pai, Vasco Fernandes de Caminha era cavaleiro do Duque de Bragança.

Antigo vereador da cidade do Porto, homem letrado, Caminha herdou do pai o cargo de mestre da balança da Casa da Moeda, com a função de tesoureiro e escrivão. Casou-se com Dona Catarina e teve uma filha, Isabel Caminha.  

Escrivão da esquadra de Cabral

Em 1500, Pero Vaz de Caminha foi nomeado escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral que iria estabelecer uma feitoria fortificando o domínio português em Calicute, na Índia, grande centro das especiarias.

No dia 9 de março de 1500, partiu de Lisboa, rumo à Índia, a maior esquadra que Portugal já teria organizado até então, com 13 navios e aproximadamente 1500 homens, entre eles, o escrivão Pero Vaz de Caminha.

Cinco dias após a partida, atingiram as ilhas Canárias, e a 22 de março avistaram as ilhas de Cabo Verde.

Em seguida, a esquadra rumou para o ocidente, provavelmente a fim de proceder o reconhecimento das terras portuguesas estabelecidas pelo Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 entre Portugal e Espanha.

Com a assinatura do Tratado de Tordesilhas, aproximadamente um terço das terras do Brasil atual já pertenciam a Portugal, seis anos antes de Cabral chegar a Porto Seguro.

Depois de uma longa viagem, no dia 21 de abril foram vistos aves e vegetação marinha próprias de regiões costeiras. No dia 22 de abril foi avistado um monte e confirmando a existência das terras.

Trechos da carta de Caminha

Pero Vaz de Caminha, na carta que enviaria depois ao rei Dom Manuel, narrou todas as observações sobre a viagem. Na introdução, Caminha relata o desparecimento da nau do Capitão Vasco de Ataíde nos primeiros dias da viagem.

No relato, juntam-se muitas observações sobre os indígenas e os primeiros contatos com os habitantes da nova terra descoberta.

Em um trecho Caminha conta que a primeira medida de Cabral foi mandar um pequeno barco, com Nicolau Coelho para ver o lugar de perto. Relata Caminha:

“Junto à boca do rio, vinte homens pardos se aproximam do escaler, todos nus, sem nenhuma veste que lhes cobrisse as vergonhas”.

E assim os descreve:

“A feição deles é serem pardos, avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Traziam os beiços de baixo furados e, metidos por eles ossos”. Traziam arcos e flechas, mas a um sinal dos portugueses eles baixaram as armas. Ali se deu a troca de presentes e depois disso o português voltou a bordo.”

No dia seguinte, após viajar 10 léguas, encontraram "um arrecife com um porto dentro, muito bom e seguro, com uma mui larga entrada” (a atual baía Cabrália), entre a ilha da Coroa Vermelha e a baía rasa de Santa Cruz, na Bahia).

Ancorados, Cabral mandou à terra Afonso Lopes, para sondar toda a volta da baía. Ao voltar, Lopes trouxe dois nativos e um deles armado de arco e flecha. Descreve Caminha:

“Um deles, fitou o colar do Capitão e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, como quisesse dizer que lá havia ouro.”

No final de sua carta escreve:

“Essa terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o Sul vimos, até outra ponta que contra o Norte vem, nós deste porto houvemos visto, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, algumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas, e a terra por cima é toda chã e muito cheia de arvoredos.”

Em outro trecho diz: “Nela, até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro. A terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque nesse tempo de agora os achamos como os de lá.”

Caminha termina sua carta: “Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de vossa ilha de Vera Cruz, hoje, sexta feira, primeiro dia de maio de 1500. Pero Vaz de Caminha.”

Pero Vaz de Caminha
Cópia da primeira página da Carta de Caminha

Na manhã de 2 de maio, Gaspar de Lemos retorna para Portugal levando as cartas do Capitão-Mor Pedro Álvares Cabral, do físico Mestre João e do escrivão Pero Vaz de Caminha.

A carta de Caminha ou “Carta a El-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil” passou mais de dois séculos no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, só tendo sido encontrada em 1773 pelo guarda-mor José de Seabra da Silva.

A carta de Caminha só foi publicada oficialmente pelo historiador espanhol Juan Batista Munhoz. No Brasil, a carta foi publicada pelo padre Manuel Aires de Casal na obra “Corografia Brasílica”, em 1817.

O caminho para Calicute

No dia 2 de maio de 1500, a esquadra retoma o caminho das Índias. No percurso, a frota perde quatro embarcações. Entre os mortos está Bartolomeu Dias, que anos antes descobrira o lugar que agora naufragou.

Com apenas seis navios, e três meses após deixar o Brasil, Cabral ancora em Calicute, onde não consegue, a princípio estabelecer relações amistosas com a população.

Depois de um ataque dos muçulmanos, em que mais de trinta portugueses foram mortos, entre eles, Cabral tomou todas as embarcações fundeadas no porto, confiscou a carga e mandou incendiá-las.

Durante dois dias, os portugueses bombardearam a cidade até obter a rendição. Cabral celebrou um tratado de paz e em seguir estabeleceu uma feitoria.

Morte

Pero Vaz de Caminha faleceu em Calicute, Índia, no dia 15 de dezembro de 1500. Teria sido uma das vítimas da tragédia ocorrida nessa feitoria, em que vários comandantes de Cabral foram mortos pelos muçulmanos.

Dilva Frazão
É bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental.
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