Sá de Miranda

Poeta português
Por Dilva Frazão
Biblioteconomista e professora

Biografia de Sá de Miranda

Sá de Miranda (1481-1558) foi um importante poeta português do século XVI. Inaugurou o Período Clássico da literatura portuguesa com as novidades da Renascença Italiana.

O poeta trouxe da Itália as ideias de renovação literária e as novas formas de composição poética, como o soneto. Era o chamado “estilo novo” que entrava em Portugal.

Francisco de Sá de Miranda nasceu em Coimbra, Portugal, no dia 28 de agosto de 1481. Filho de Gonçalo Mendes de Sá, cônego da Sé de Coimbra, e de Inês de Melo, de família nobre de Barcelos, era meio irmão de Mem de Sá, que foi o terceiro governador-geral do Brasil.

Sá de Miranda estudou em Coimbra e depois se mudou para Lisboa, onde cursou Direito na Universidade de Lisboa. Foi frequentador dos serões da corte.

Cancioneiro Geral

Sá de Miranda escrevia poesias dos diversos gêneros medievais, como cantigas e vilancetes (poemas curtos de caráter campesino). Em 1516, Garcia Resende, um poeta frequentador da corte, reuniu poesias escritas desde 1450 e publicou em “Cancioneiro Geral”, que inclui treze poemas do “Doutor Francisco de Sá”, à maneira dos trovadores da época, entre elas Cantiga e Campos Sem Fim:

      Cantiga

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo,
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crescesse,
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo,
tamanho inimigo de mim?

    Campos sem fim

Por estes campos sem fim, 
onde a vista assim se estende, 
que verei, triste de mim, 
pois ver-vos se me defende? 

Todos estes campos cheios 
são de saudade e pesar, 
que vem para me matar, 
debaixo de céus alheios. 
Em terra estranha e em ar, 
mal sem meio e mal sem fim, 
dor que ninguém não entende, 
até quão longe se estende 
o vosso poder em mim! 

Classicismo em Portugal

Em 1521, Sá de Miranda viajou para a Itália, onde permaneceu durante seis anos, e entrou em contato com a grande efervescência intelectual do Renascimento, quando se apaixonou pelo “dolce stil nuovo”, como eram denominados os novos conceitos de arte e o novo ideal de poesia.

Em 1527, Sá de Miranda regressou de sua viagem à Itália, de onde levou para Portugal as ideias de renovação literária e as novas formas de composição poética, como o soneto, o terceto, a epístola, a elegia, a ode, a écloga e a comédia clássica. Era o início ao Classicismo em Portugal.

O período clássico português, se prolongou até 1580, e só terminou com a morte de Luís de Camões, a figura máxima do Classicismo, o escritor português mais importante do século XVI.

A Escola Clássica é o suporte literário das ideias renascentistas. Essa corrente consiste em uma concepção artística, baseada na imitação dos clássicos gregos e latinos, considerados modelos da Antiguidade.

Como estética literária, essa tendência cultua a perfeição formal na prosa e na poesia. O pensamento é lógico, e a estrutura da composição (métrica, rima e estrofes) obedece a formas fixas, universalizando a arte. O estilo permanece impessoal, devendo traduzir as verdades eternas.

A poesia de Sá de Miranda levou para Portugal uma maneira nova de se escrever e um gosto poético mais refinado. Adotou certas formas poéticas fixas, sujeitas a determinadas regras. Os poetas passaram a se sentir mais preparados intelectualmente se comparados aos poetas medievais.

A poesia clássica de Sá de Miranda

Sá de Miranda desenvolveu vários temas poéticos, atingindo a reflexão moral, a filosofia, a política, como também o lirismo amoroso. O gênero mais cultivado nessa época foi o soneto, estrutura métrica de quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos. Como no soneto O Sol é Grande:

O Sol é Grande

O sol é grande: caem co’a calma as aves,
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria.
Esta água que de alto cai acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas todas vãs, todas mudaves,
Qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muitos mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
Vi tantas águas, vi tanta verdura,
As aves todas cantavam de amores.

Tudo é seco e mudo, e de mistura,
Também mudando-me eu fiz doutras cores.
E tudo o mais renova: isto é, sem cura!

Sá de Miranda nunca abandonou as formas tradicionais da redondilha, mesmo depois de aceitar a escola italiana. Em seus poemas, rejeitava o luxo e a vaidade, exaltando a vida do campo, o amor e a liberdade em éclogas como “Fábula do Mondego”, “Basto”, “Célia” e “Encantamento”.

Além de composições poéticas, Sá de Miranda escreveu a tragédia “Cleópatra” e algumas “cartas” em verso, entre elas, “Carta ao rei D. João III”.

Em 1530, Sá de Miranda afasta-se da corte, indo viver na Quinta da Tapada, onde redigiu grande parte de sua obra. O autor, embora tenha nascido em Portugal, escreveu seus versos em espanhol.

Sá de Miranda faleceu em Tapada, no Minho, Portugal, no dia 17 de maio de 1558. Seus restos mortais encontram-se sepultados na Igreja de São Martinho de Carrazedo em Amares.

Dilva Frazão
É bacharel em Biblioteconomia pela UFPE e professora do ensino fundamental.
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