Ulisses Pernambucano
Biografia de Ulisses Pernambucano
Ulisses Pernambucano (1892-1943) foi um médico psiquiatra e professor pernambucano, considerado um dos pioneiros da psiquiatria social no Brasil. Ele defendia que a doença mental devia ser tratada com respeito ao paciente e com atenção ao meio em que a pessoa vivia, numa época em que os hospícios serviam sobretudo para trancar os doentes.
No Recife, dirigiu a Escola Normal e o Hospital da Tamarineira, onde fez uma grande reforma no atendimento aos doentes mentais. Também ajudou a organizar o 1º Congresso Afro-Brasileiro, em 1934. Foi preso em 1935, acusado de ser comunista, e morreu no Rio de Janeiro em 1943, aos 51 anos. O Hospital da Tamarineira hoje leva o seu nome: Hospital Ulysses Pernambucano.
Origem
Ulisses Pernambucano de Melo Sobrinho nasceu no Recife, no dia 6 de fevereiro de 1892. Era filho do desembargador José Antônio Gonçalves de Melo e de Maria da Conceição Melo. Na época, o nome era escrito com y, Ulysses, forma que ainda aparece no nome do hospital.
Fez os estudos primários e secundários no Colégio Aires Gama, no Recife. Era primo do sociólogo Gilberto Freyre, com quem trocou ideias durante toda a vida.
Estudos no Rio de Janeiro
Ainda adolescente, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Medicina. A partir de 1910, frequentou o Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, onde aprendeu com o psiquiatra Juliano Moreira, que já defendia um tratamento mais humano para os doentes mentais.
Formou-se em 1912, com apenas 20 anos. Sua tese de conclusão foi sobre a sífilis passada de pais para filhos.
Primeiros anos como médico
Depois de formado, trabalhou como médico clínico em Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco. Em 1914, mudou-se para a cidade da Lapa, no Paraná.
Em 1915, casou-se com a prima Albertina Carneiro Leão, que também era médica.
Professor no Recife
Ulisses voltou ao Recife por volta de 1917. Passou em concurso para professor do Ginásio Pernambucano, a escola pública mais tradicional do estado, onde ensinou Psicologia, Lógica e História da Filosofia. Ao mesmo tempo, continuava atendendo como médico.
Nessa fase, publicou estudos sobre a educação de crianças com deficiência intelectual (1918), sobre pessoas ambidestras (1919) e, mais tarde, sobre a altura dos alunos das escolas de Pernambuco (1927).
Diretor da Escola Normal
Em 1923, no governo de Sérgio Loreto, foi nomeado diretor da Escola Normal do Recife, que formava professoras. Ficou no cargo até 1927. Fez mudanças no ensino, na linha da chamada Escola Nova, que colocava o aluno no centro do aprendizado, e reformou o prédio.
O Instituto de Psicologia
Em 1925, criou o Instituto de Psicologia, um dos primeiros do país. Lá, sua equipe adaptou testes de inteligência para as crianças brasileiras. A professora Anita Paes Barreto foi uma das principais colaboradoras e chegou a dirigir o instituto.
Os testes mostraram que muitas crianças precisavam de ensino especial. Daí surgiu a proposta de uma escola só para elas, que na época se chamava "escola para anormais". A educadora Helena Antipoff sugeriu trocar a palavra por "excepcionais", que passou a ser usada no Brasil.
Primeira passagem pela Tamarineira
Em 1924, o governo de Pernambuco assumiu a administração do Hospital da Tamarineira, o hospício do Recife, e Ulisses passou a dirigi-lo. Ficou cerca de dois anos no cargo. Mandou fechar as celas usadas para isolar os pacientes, as chamadas masmorras, e criou um serviço de tratamento com água, a hidroterapia.
Diretor do Ginásio Pernambucano
Em 1928, Ulisses assumiu a direção do Ginásio Pernambucano, onde tinha sido professor. Em 1930, passou o cargo ao crítico literário Olívio Montenegro.
A reforma da assistência aos doentes mentais
Depois da Revolução de 1930, Ulisses voltou a dirigir a Tamarineira e, em 1931, criou a Assistência a Psicopatas de Pernambuco. Foi uma mudança grande na forma de cuidar dos doentes mentais. Em vez de deixar todos presos no hospício, ele dividiu o atendimento:
- o hospital da Tamarineira ficou só para os casos agudos, que precisavam de internação;
- os pacientes crônicos iam para uma colônia agrícola em Barreiros, onde trabalhavam na terra;
- foi criado um ambulatório, para quem podia se tratar sem ser internado;
- surgiu um serviço aberto, em que o paciente não ficava trancado;
- um manicômio judiciário passou a receber pessoas com doença mental que tinham cometido crimes.
Ele também criou o Serviço de Higiene Mental, que trabalhava para prevenir as doenças mentais, e ligou a ele o Instituto de Psicologia. O psiquiatra José Lucena, que estudou a obra de Ulisses, destacou que ele foi um dos primeiros a tratar a saúde mental pensando na comunidade e na prevenção.
O Congresso Afro-Brasileiro
Ulisses também estudou a cultura e a saúde da população negra de Pernambuco. Em 1934, junto com Gilberto Freyre, organizou no Recife o 1º Congresso Afro-Brasileiro. O encontro tratou a cultura afro-brasileira como um valor, e não como algo inferior, como era comum na época.
No congresso, Ulisses apresentou o trabalho "As doenças mentais entre os negros de Pernambuco". Sua equipe também estudou os terreiros de candomblé do Recife, que até então eram vistos pela polícia apenas como caso de repressão.
A prisão em 1935
Em novembro de 1935, depois do levante comunista daquele ano, o governo de Getúlio Vargas passou a perseguir quem considerava suspeito. Ulisses se recusou a passar às autoridades informações sobre um paciente acusado de atividades subversivas. Foi afastado da direção do hospital e preso, acusado de ser comunista. Ficou cerca de 40 dias na Casa de Detenção do Recife.
Depois de solto, foi aposentado à força do serviço público.
Os últimos anos
Mesmo afastado do governo, Ulisses continuou trabalhando. Em 1936, fundou o Sanatório Recife, uma clínica particular, e a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste. Em setembro desse ano, sofreu o primeiro infarto.
Em 1938, assumiu a cadeira de Neurologia da Faculdade de Medicina do Recife e fundou a revista Neurobiologia, dedicada à psiquiatria e à neurologia.
Morte
Ulisses Pernambucano morreu no Rio de Janeiro, no dia 5 de dezembro de 1943, aos 51 anos, de problemas no coração.
Seus alunos e colaboradores, como o psiquiatra Luiz Cerqueira e o antropólogo René Ribeiro, levaram adiante as suas ideias. Ulisses é o patrono de uma das cadeiras da Academia Pernambucana de Medicina.
O hospital que leva o seu nome
O Hospital da Tamarineira foi inaugurado em 1º de janeiro de 1883, no bairro da Tamarineira, no Recife. Foi o segundo hospital psiquiátrico do Brasil. No início dos anos 1980, passou a se chamar Hospital Ulysses Pernambucano. O prédio foi tombado como patrimônio histórico de Pernambuco em 1992.
O hospital continua funcionando e é a principal emergência psiquiátrica do estado. Seu terreno, porém, virou alvo de disputas: em 2010 a prefeitura do Recife impediu a construção de um shopping no local, e em 2023 anunciou um parque público na área, mantendo o hospital.
Outra pioneira da luta por um tratamento mais humano para os doentes mentais foi a psiquiatra Nise da Silveira, que trabalhava no Rio de Janeiro e também foi presa, em 1936, acusada de ser comunista.
- Padre Roma (José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima) José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima (1768-1818), conhecido como Padre Roma, f...
- Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um psiquiatra suíço, fundador da escola da P...
- Augusto Cury (1958) é um médico psiquiatra, professor e escritor brasileiro,...
- Nise da Silveira (1905-1999) foi uma psiquiatra brasileira reconhecida por tr...